Instituto Butantan firma parceria internacional para desenvolver terapia inovadora contra câncer hematológico

Acordo visa ampliar acesso à terapia no Brasil; tecnologia é voltada para pacientes que não responderam a tratamentos convencionais

A parceria prevê que as células sejam desenvolvidas e produzidas no Núcleo de Terapias Avançadas de São Paulo (Nutera-SP), instalação coordenada pelo Butantan que conta com equipamentos específicos para terapias celulares

Agência SP – Publicado em 10/04/2026 – 10:59

O Instituto Butantan assinou um acordo de licenciamento de tecnologia com a biofarmacêutica chinesa IASO Bio para desenvolvimento local de uma terapia celular CAR-T (células T contendo um receptor quimérico de antígeno) para doenças hematológicas, como cânceres de sangue. O tratamento utiliza as células do sistema imune do próprio paciente para combater a doença.

A parceria prevê que as células sejam desenvolvidas e produzidas no Núcleo de Terapias Avançadas de São Paulo (Nutera-SP), instalação coordenada pelo Butantan que conta com equipamentos específicos para terapias celulares. Atualmente, a unidade já desenvolve outra terapia CAR-T, em parceria com o Hemocentro de Ribeirão Preto, mas destinada a tratamento de outras doenças, também hematológicas.

O desenvolvimento local do novo tratamento por uma instituição pública permite um custo menor, favorecendo a potencial incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Esse tipo de tratamento pode custar ao redor de US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões) por paciente. Hoje, no Brasil, a terapia está disponível somente na rede privada.

“Esse tratamento revolucionou o combate a doenças do sangue, mas seu acesso ainda é um desafio. A nova parceria permite que o Instituto Butantan, uma instituição pública, amplie seu portfólio para atender às necessidades da saúde pública brasileira, expandindo o acesso a tecnologias de ponta”, afirma o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás.

Para o coordenador do Nutera-SP, Vanderson Rocha, professor titular de Hematologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o desenvolvimento local da CAR-T por uma instituição pública é um marco para a ciência brasileira. “No futuro, a terapia poderá ampliar as possibilidades de tratamento para os pacientes atendidos pelo SUS que já não respondem às terapias convencionais”, diz.

Fundada em 2017, a IASO Bio é uma biofarmacêutica que atua no setor de Medicamentos de Terapia Avançada. É especializada no desenvolvimento de terapias celulares e produtos biológicos para malignidades hematológicas e doenças autoimunes, com plataformas que abrangem todo o ciclo de vida do produto – da descoberta e desenvolvimento à fabricação e comercialização.

“Esta parceria com o Butantan é um marco fundamental na estratégia global da IASO Bio para levar nossas terapias celulares inovadoras aos pacientes na América Latina”, afirma Jinhua Zhang, fundador e CEO da IASO Bio. “Ao combinarmos nossa tecnologia proprietária de terapia celular com as excepcionais capacidades de desenvolvimento e produção do Instituto Butantan, temos uma oportunidade única de reduzir significativamente os custos e tornar este tratamento acessível a muito mais pacientes no Brasil por meio do sistema público de saúde.”

Terapia CAR-T contra linfoma e leucemia

A tecnologia CAR-T surgiu nos Estados Unidos em 2010, como resultado de mais de 60 anos de estudos, e consiste em modificar geneticamente as células de defesa do paciente para combater o câncer. Por meio da coleta do sangue, os linfócitos T são isolados e modificados, tornando-se CAR-T. Depois, são inseridos no organismo e atacam diretamente as células tumorais, sem afetar as células saudáveis.

O Instituto Butantan trabalha com a tecnologia de células CAR-T desde 2022, quando firmou uma parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e o Hemocentro de Ribeirão Preto para inaugurar dois núcleos de terapia celular, em São Paulo e em Ribeirão Preto. O acordo é destinado à produção de um tratamento específico para leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não-Hodgkin de células B.

Desenvolvida no Centro de Terapia Celular da FMRP-USP, a terapia começou a ser testada no Brasil em 2019, em pacientes que deixaram de responder aos tratamentos convencionais, e demonstrou 80% de eficácia na redução de tumores. Em 2024, o produto entrou para a etapa de ensaio clínico fase 1/2.